segunda-feira, maio 15, 2006

Dia de Jogo do Brasil é Feriado

sexta-feira, maio 12, 2006

Porque o Corinthians Implodiu na Libertadores.

Os responsáveis não estavam no gramado


O gol contra que marcou pode ter colocado Coelho no rol dos culpados por mais um insucesso corintiano na Libertadores. Pois seu infortúnio representou o empate provisório do River Plate, ponto de partida para a virada dos argentinos. Existe também a possibilidade de se culpar Betão, que falhou no segundo gol millonario (foto). Porém, estava bem fácil de identificar os principais culpados por mais uma queda alvinegra em uma competição continental. E esses não estavam no gramado, mas nas bancadas do Pacaembu tendo problemas com a polícia.

É até cansativo falar novamente nisso, mas é inevitável. Os responsáveis em primeira instância são os dirigentes corintianos, os que tentavam esconder Boris Berezovski da Polícia Federal no estádio. Eles deram uma aula de como cometer erros em série desde o final do ano passado. O que logicamente se refletiria em campo.

A maneira como o Corinthians desmoronou após o empate do River Plate foi idêntica às quedas em 1996 (Grêmio) e 2003 (River Plate). O time até vinha bem, mas, ao primeiro sinal de dificuldade, soçobrou. Simplesmente porque não tinha condições psicológicas de lidar com a pressão sufocante que domina o Parque São Jorge sempre que o assunto é competição internacional.

Assim, a prioridade alvinegra deveria ser, antes mesmo de contratar um elenco milionário (nenhuma referência ao River Plate), evitar que essa necessidade patológica de conquistar a Libertadores tomasse conta do elenco. Os dirigentes (somando clube e MSI) tinham de criar um clima propício para se trabalhar.

Primeiro, deveriam assumir sua responsabilidade nessa campanha, trazendo para si parte da pressão que recairia sobre os jogadores. Nada mais justo, já que, caso o Corinthians conquistasse a Libertadores, todos capitalizariam. Alberto Dualib colocaria uma faixa enorme na fachada da Fazendinha voltada à Marginal Tietê para dizer que sua administração é vitoriosa. E Kia Joorabchian faria papel de misto de playboy bem-sucedido com herói da “nação alvinegra” na noite paulistana e nas mesas redondas menos críticas.

Claro, os dirigentes teriam de mostrar um planejamento sólido e determinado. E isso começaria com a contratação de um técnico de confiança, que tivesse respaldo para comandar o elenco e fazer o que considerasse mais adequado. Por mais que desagradasse certos conselheiros, jogadores, jornalistas e torcedores. Foi o que Felipão fez no Palmeiras em 1999, o que serviu também para atrair para si as atenções e tirando ainda mais os jogadores do alvo das cobranças.

Mas fizeram tudo ao contrário. Por mais que a defesa seja capenga em relação ao meio-campo e ataque, o Corinthians tem uma base forte, talvez a mais poderosa das Américas no papel. Os dirigentes consideraram que seu papel estava feito e que restava aos jogadores corresponderem ao investimento em campo ganhando títulos. E qualquer jogador de futebol, quando se sente com tamanha responsabilidade, quer a contrapartida em poder e autonomia.

O elenco se tornou quase que autogovernado. Sem desmerecer o trabalho de Márcio Bittencourt, Antônio Lopes e Ademar Braga, a diretoria (ou o que restava dela) não escondia de ninguém que o treinador era apenas a figura exigida formalmente para assinar as súmulas. Isso ficou claro na maneira como Ricardinho e Roger se dirigiam a Braga durante a partida contra o River.


É verdade que os jogadores podem ser responsabilizados por isso, mas era obrigação da diretoria dar respaldo ao técnico que contratou ao invés de dar o poder e um grupo sabidamente heterogêneo e incapaz de se autogerenciar. Mas ocorreu justamente o contrário. A MSI alimentava o ego de seus contratados, enquanto que conselheiros do clube incentivavam a união dos pratas-da-casa contra os recém-contratados.

Esse foi apenas um caso da briga pelo poder entre Dualib e Joorabchian. Um desautorizava o que dizia ou fazia o outro. A contratação de Marcelinho Carioca foi a caricatura mais visível desse processo. Ninguém no Corinthians sabia realmente quem mandava e, assim, ficou difícil para os jogadores e torcedores saber a quem recorrer em qualquer necessidade.

A soma disso tudo foi um time sem união, personalidade e padrão tático, mas com uma enorme pressão para ganhar todas as competições que disputasse. O título brasileiro e a classificação na primeira fase da Libertadores só vieram porque o elenco é, individualmente, muito acima da média sul-americana. Sempre havia um Tevez, um Roger ou um Nilmar para decidir.

O problema é que, na Libertadores, não se pode contar com isso. É preciso um conjunto consolidado e determinado, com boa organização e segurança para ultrapassar os obstáculos. Jogadores como Tevez, Mascherano, Ricardinho e Carlos Alberto até podem ter experiência suficiente para suportar tudo isso, mas o Corinthians não conseguiria nada se não desse suporte a garotos como Coelho e Betão. Até porque esses jogadores já mostraram que não são ruins como alguns estão supondo. Apenas precisam de tranqüilidade e confiança para amadurecerem.

Se já não bastasse a seqüência de equívocos durante a temporada, os dirigentes culminaram sua trajetória infeliz com várias bobagens na semana que antecedeu a partida de volta contra o River Plate, pelas oitavas-de-final da Libertadores. Tudo porque insistiram em achar que sua função nesse momento era criar um clima mais tenso para o encontro.

No jogo de ida, o Corinthians foi muito mal, pois mostrou o nervosismo já esperado. Mesmo assim, conseguiu um bom resultado e ainda saiu do Monumental de Núñez com o direito de reclamar da arbitragem. Se a equipe se preparasse adequadamente para o duelo e jogasse de maneira solta e relaxada, não teria motivos para não vencer no Pacaembu.


Porém, era preciso tratar esse jogo como algo relativamente comum para evitar que a expectativa pela partida consumisse os jogadores por vários dias. O que não ocorreu. O Corinthians enviou uma comitiva a Assunção para reclamar da indicação do chileno Carlos Chandía e pressionar a comissão de arbitragem da Conmebol a não prejudicar o time no jogo de volta. Depois, espalhou que o árbitro seria caseiro e, por isso, os corintianos não deveriam se preocupar.

Claro que Chandía ficou sabendo disso. E, ciente que a expectativa era a de que ele apitasse em favor do time da casa e atendesse a pressões vindas do Paraguai, o chileno trataria de salvar sua honra e fazer a arbitragem mais isenta – ou menos pró-Corinthians – possível. Ele não influenciou na vitória do River Plate, mas as trapalhadas dos dirigentes fizeram que, na tentativa de ter um juiz tendencioso, ele tivesse um neutro.

Além disso, aumentou um pouco mais a pressão sobre os jogadores. Primeiro, disse que, se ninguém fosse expulso, o time venceria. Depois, no dia anterior ao jogo, permitiu a presença de torcedores no treino no Pacaembu. Como era de se imaginar, o coro foi de “se o Corinthians não ganhar, o pau vai quebrar”. Nem um mau aluno em faculdade de administração picareta veria essa como uma estratégia inteligente de motivação de funcionários.

E aí aparece o segundo grupo de responsáveis pela queda corintiana na Libertadores. Poucos clubes no Brasil – talvez nenhum – dependem tanto de seus seguidores quanto o Corinthians. O ânimo das arquibancadas sempre foi e sempre será o motor dos alvinegros. É uma questão cultural que não mudará.


Porém, a forma como a torcida tem reagido em determinadas situações não deve ser admitida e os próprios torcedores deveriam refletir sobre suas ações. Gritos de “incentivo” que ameaçam a integridade física dos jogadores não têm efeito positivo algum. Só servem para deixar os jogadores mais tensos. E isso não é novidade. Já foi verificado nas Libertadores de 1999, 2000 e 2003.

A violência durante a partida, com tentativa de invasão do gramado evitada pela polícia, é ainda pior, pois confirma que a possibilidade de “o pau quebrar” (para citar o canto da torcida) é real. Os dirigentes alimentam as torcidas organizadas e suas manifestações pois usam isso politicamente, mas os membros poderiam ver que há um limite nas manifestações e que o time precisa de apoio e confiança para ultrapassar as dificuldades inerentes de qualquer partida da Libertadores.

Analisando com calma, fica claro que o fato de o Corinthians não conquistar títulos continentais não é uma sina e sim, uma conseqüência natural da maneira como o clube é gerenciado. Um título é possível, mas passa pela mudança na filosofia de administração e na criação de um ambiente de trabalho com comando e que passe confiança – não cobrança – sobre os jogadores. Mais até do que ter um supertime. Afinal, até Once Caldas e Olimpia já ganharam a competição recentemente.

Ubiratan Leal by Balipodo.com