segunda-feira, dezembro 12, 2005

O imediatismo derruba Luxemburgo

Por Guilherme Amorim do Direto da Redação

O Real Madrid demitiu Vanderlei Luxemburgo e provou, mais uma vez, que no futebol, atualmente, o que valem são os resultados, o imediatismo. Não seria diferente na Espanha, terra que abriga um milionário campeonato de futebol. Onde imprensa e dirigentes, apoiados no talento dos estrangeiros, enchem a boca para falar, como "autoridades universais", sobre os segredos do futebol.

Uníssonos, imprensa espanhola, dirigentes e torcedores crucificaram um dos maiores treinadores de futebol de nossa história recente. A demissão de Vanderlei Luxemburgo tocou o âmago dos torcedores, profissionais de futebol, brasileiros. Mais do que nunca, feriu o orgulho de uma nação que, com seus mitos e heróis, não se cansa de trabalhar - sempre dez vezes mais - para conquistar o reconhecimento de um continente que, em 2000, sequer indicou Romário - genial, eficaz e incontestável - para a lista dos melhores do mundo.

"Mas levaram Vanderlei Luxemburgo. Sabiam quem estavam levando", dirão alguns. Acham mesmo que pessoas de visão seriam capazes de observar o histórico do técnico, contratá-lo, com todas as referências, para então, diante da primeira dificuldade, demiti-lo? Difícil de acreditar. O que parece firmar-se como verdade, a cada dia, é que o futebol europeu é o brinquedo preferido de crianças mimadas. Primorosos administradores de finanças e montantes, mas profundos desconhecedores de futebol.

Arrigo Sacchi bem que tentou, mas não há argumento para quem não enxerga o futebol em primazia. O impulso imediatista, o desejo incontrolável pelos lucros e finanças exorbitantes parecem ter afastado de vez o futebol como prioridade de si mesmo. Em primeiro lugar, está o dinheiro. Em seguida, sim, talvez, quem sabe, o próprio futebol.

Quem é Vanderlei Luxemburgo? Arrigo Sacchi saberia responder. Você, torcedor brasileiro, seja de qual clube for, também saberia responder. Luxemburgo é, antes de tudo, um vencedor. Um vitorioso que deixou contribuições fantásticas às histórias de tradicionais equipes, como o Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro, Santos. E no Bragantino? Clube que alavancou a carreira de um profissional competente, arrojado e inteligente?

Vanderlei entende de futebol. Mas não, isso não é prioridade na Europa. Finanças se sobrepõem ao esporte, à magia, ao trabalho dos competentes. Os merengues, sobretudo, não sabem quem é Vanderlei Luxemburgo. São ocupados demais para conhecer a história do futebol pelo mundo. Estão centrados demais para saber que o trabalho a longo prazo de Vanderlei, por todos os clubes pelos quais passou, registrou aproveitamento digno de reverência. Estão entretidos demais com as mentiras que contam a si mesmos.

A verdade é que o técnico brasileiro não ganhou um voto de confiança. Deixou o clube porque foi julgado por pessoas que não entendem de futebol. Saiu do Real Madrid porque profundos desconhecedores do esporte fizeram vista grossa à instabilidade do elenco e, como prova de sua ignorância, lançaram mão da alternativa mais fácil. Atirar Luxemburgo aos leões.

A Espanha não conhece Vanderlei Luxemburgo! Muito menos entende de futebol - e não parece ter interesse em aprender. No entanto, invcrivelmente, continua ditando seus equívocos como verdades universais. E são essas as pessoas que demitiram o treinador brasileiro. As mesmas pessoas que, escoltadas pela arrogância de quem fingiu não ver a Espanha na repescagem para a Copa do Mundo, acreditam piamente que são donas do melhor futebol do mundo.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Pearl Jam em São Paulo

Tirado do Estado de São Paulo 02/12/2005

São Paulo - Após 15 anos de espera, os fãs do grupo terão dois dias para assistir aos shows da banda de Eddie Vedder. Chegam nesta sexta-feira a São Paulo a bordo de um jato privado, com comitiva de 55 pessoas, para dois shows no Pacaembu, sexta e sábado. Os ingressos já estão esgotados há 15 dias.

Quando o Pearl Jam surgiu, Kurt Cobain ironizou, dizendo que eles eram raquíticos. A rivalidade entre os dois grandes grupos da chamada era grunge de Seattle teve lances duros, mas Cobain morreu cedo, virou mito e o Pearl Jam seguiu adiante, tornando-se a grande banda sobrevivente do grunge - infinitamente maior do que sua contemporânea Mudhoney, por exemplo, a quem ficou o encargo de abrir seus shows nessa turnê.

O Pearl Jam tem o desafio de fazer um show tipo Sessão da Tarde, já que as exigências da administração do Pacaembu fixaram um horário improvável para o rock: o Mudhoney começa às 18h30 e o Pearl Jam às 19h30, terminando por volta de 21h50.

A história do Pearl Jam remonta a 1990, em Seattle. A banda que lhe deu origem chamava-se Mother Love Bone, que já tinha o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament, além do baterista Jack Irons. O vocalista, Andrew Wood, morreu de overdose de heroína naquele ano, o que levou o grupo a se reformular. Recrutaram para os vocais um surfista de 25 anos chamado Eddie Vedder, leitor de Kurt Vonnegut, e mudaram de nome. Em 1991, gravaram seu primeiro álbum, Ten, até hoje o maior sucesso de sua carreira, mais de 10 milhões de cópias vendidas.

A idéia original de independência levou o Pearl Jam a negar o estrondoso sucesso. Logo após o terceiro disco, Vitalogy (1994), seguiram como se fossem banda indie, abrindo shows da turnê Mirror Ball, de Neil Young. Mantém seu próprio selo discográfico, J Records, e dispõem seus shows na internet horas após sua realização.

Essa contradição entre ser um supergrupo e ter consciência política é só aparente, no seu entender. Sua ética inclui inúmeros shows beneficentes (como o recente em prol das vítimas do Furacão Katrina) e ativismo político. No ano passado, Eddie Vedder foi à TV dizer por que seus compatriotas não deveriam apoiar a candidatura de George W. Bush.

Agora, o que interessa: o show do grupo. No primeiro concerto de sua turnê latino-americana, no dia 22, em Santiago do Chile, no estádio de San Carlos de Apoquindo, apresentaram suas armas.

Eddie Vedder é a alma do negócio, numa banda que combina poderosos riffs de inspiração hardcore com climões do rock pós-punk dos anos 80. Barulhento e melódico, visceral e divertido. Um grande show, e Eddie ainda é um cavalheiro. "Por favor, agradeçam ao outro grupo de Seattle que tocou aqui hoje", pediu.

O outro grupo, o Mudhoney, tem uma abordagem demasiado modesta. Cresce em canções como Hate the Police e You Got It, mas não tem acesso à mesma qualidade de som do Pearl Jam.

De qualquer modo, saudações a Mark Arm, porque fez um inesquecível show aqui cantando com o MC5, em agosto. Nos sites de compras, como o Mercado Livre, havia ingressos sendo revendidos por preços entre R$ 190 e R$ 210. Um fã conta ter adquirido ingresso de pista em cambista por R$ 300 (custavam entre R$ 80 e R$ 150). É permitida a entrada de menores de 14 anos, desde que acompanhados dos pais ou responsáveis. Acima dessa idade, podem entrar sozinhos.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Best of the Best

Reproduzo aqui o texto de Tomaz Alves, sobre o melhor jogador da história do futebol Inglês.

por Tomaz R. Alves
1/dezembro/2005



Morreu, aos 59 anos, o homem que redefiniu a cara do futebol britânico: George Best. Brilhante em campo, bonito, inteligente e carismático, o craque foi o primeiro a conseguir atrair a atenção até de quem nunca viu uma partida de futebol. A vida do jogador pode ser considerada uma mistura de David Beckham com Garrincha. Mas sua importância foi maior que a dos dois.


Best escolheu o momento certo para brilhar: os anos 60. Era uma época de mudanças, de rebeldia, de criatividade, de agitação, de grandes ídolos pop. Mas também era uma época de excessos e de conflitos. E George Best encarnou perfeitamente o espírito de seu tempo, tanto pelo lado bom quanto pelo ruim.


Dentro de campo, Best era um craque inquestionável. Não é exagero colocá-lo ao lado de um Cruyff ou um Maradona. O jogador só não alcançou esse status internacional porque era irlandês (da Irlanda do Norte) e nunca disputou uma Copa do Mundo. Se fosse inglês, não só teria jogado um Mundial, como também teria sido campeão, em 1966 - justo a época de seu apogeu.


E o estilo de George Best é o que agrada os brasileiros. Irreverente, habilidosíssimo, criativo, grande driblador, goleador nato. Best tem lances que em nada devem a um Garrincha em seus melhores momentos. Certamente, foi o jogador britânico mais habilidoso de todos os tempos. Muito se fala do status de ídolo pop do jogador. Mas o que o torna realmente especial é que essa idolatria era mais que justificada pela qualidade de seu futebol.


Ao longo de sua carreira, Best ganhou dois Campeonatos Ingleses e uma Copa dos Campeões, sempre com o Manchester United. Em 1968, ano do título europeu, ganhou também a Bola de Ouro, da revista France Football. Sua galeria de troféus e de conquistas poderia ter sido muito mais extensa, se o jogador não tivesse praticamente encerrado a carreira precocemente, com apenas 28 anos de idade (na verdade, ele continuou jogando até os 37 anos, mas não em times de alto nível).


Badalado como Beckham, trágico como Garrincha


E por que Best parou de jogar tão cedo? A badalação extracampo explica isso. O fato é que o estilo de vida do jogador era algo impensável hoje em dia. Best era um ‘bon vivant’, que usufruía ao máximo sua condição de ídolo. Ele saía com as mais belas mulheres, ia às festas mais badaladas, bebia, se esbaldava.


É tentador comparar a badalação em torno de George Best com a que hoje cerca David Beckham. Em termos de intensidade e alcance, a comparação talvez seja correta. Só que, nos anos 60, nunca se havia visto tamanho frenesi em torno de um atleta. Best foi o primeiro jogador a ter status comparável ao de um astro de rock. Não por acaso, foi apelidado de ‘El Beatle’ por um jornal inglês, após uma histórica vitória de 5 a 1 sobre o Benfica, em 1966. O problema é que, ao contrário do que acontece hoje, Best não tinha a seu lado hordas de empresários, marqueteiros e ‘babás’ de todos os tipos, que cuidassem de sua imagem. A fama estava lá, para ser usufruída. E George Best a aproveitou ao máximo.


Com o passar do tempo, os excessos do jogador foram aumentando. As noitadas eram maiores e mais freqüentes e, principalmente, as quantidades de bebida cresciam cada vez mais. A partir de 1969, isso passou a afetar Best dentro de campo, e a qualidade de seu futebol começou a decair - junto com o time do Manchester, que também não era o mesmo de outrora. Em 1974, o clube se cansou da indisciplina e do futebol irregular do jogador e acabou demitindo ele. Iniciaria-se aí uma perambulação por times dos Estados Unidos, Irlanda e de divisões inferiores do futebol inglês, em que Best ocasionalmente dava flashes de sua grandeza, mas sem nenhuma regularidade.


Aí é que começou a prevalecer o ‘lado Garrincha’ de George Best. Depois que ele se aposentou definitivamente, em 1983, o problema do alcoolismo piorou sensivelmente. Depois de aposentado, não houve ostracismo: Best continuou nas festas e nas páginas de jornal. Mas agora as manchetes diziam respeito a incidentes em sua vida privada, brigas em bares, problemas com o alcoolismo.


Em 1984, o jogador chegou a passar 12 semanas na prisão, condenado por dirigir bêbado e agredir um policial. Logo, problemas financeiros começaram a afligi-lo, chegando ao ponto de ter sua falência decretada. A saúde também só piorava, devido ao alcoolismo: em 2002, Best esteve perto da morte e submeteu-se a um transplante de fígado. Tristemente, continuou a beber após a operação. Nos últimos anos de sua vida, entre um problema de saúde e outro, Best se sustentava como comentarista de TV e dando palestras.


Com apenas 59 anos de idade, Best morreu. Foi-se como um dos maiores craques da história do futebol, mesmo nunca tendo desenvolvido 100% de seu potencial dentro de campo. Mais do que um craque, um conquistador, um pop-star, Best era um homem realmente inteligente e carismático. Para o bem e para o mal, era um tipo de ídolo que nunca mais veremos no futebol. Mesmo tendo se passado mais de 35 anos desde seu auge, espera-se que seu funeral, no próximo sábado, seja o maior da história da Irlanda do Norte. Isso é George Best.


Best por Best


Para dar uma dimensão melhor do que foi a vida e a personalidade de George Best, nada melhor do que algumas frases famosas ditas pelo próprio craque:


“Se eu fosse feio, vocês nunca teriam ouvido falar de Pelé”

“Parei de beber, mas só quando estou dormindo”

“Em 1969, eu abandonei as mulheres e o álcool. Foram os piores 20 minutos da minha vida”

“Eu gastei muito dinheiro em bebidas, mulheres e carros rápidos. O resto eu desperdicei”

“Uma vez eu disse que o QI do Gascoigne era menor que o número da camisa dele. Aí ele me perguntou: ‘o que é QI?’”

“Eu sou o cara que levou o futebol das páginas internas para a capa dos jornais”


Mas a frase mais famosa sobre George Best foi dita por um mero atendente, que entregava champanhe para o jogador, em 1971. Vendo Best no luxuoso quarto de hotel, ao lado da Miss Universo quase nua e com milhares de libras ganhas numa noitada no cassino, o rapaz perguntou: “E então, George, onde é que as coisas deram errado?”